Postado em: 9 de dezembro de 2018 | Por: Ezequiel Neves

Depressão: demônio ou doença?


Segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) até 2030, a depressão será a maior causadora de perda de qualidade de vida no mundo, hoje, a depressão está relacionada direta ou indiretamente com a morte de 850 mil pessoas por ano, estima-se que só no Brasil sejam 20 milhões o número de pessoas com depressão.
Num primeiro momento poderíamos pensar que depressão é coisa de psiquiatra, e que o tratamento deve ser por meio de remédios (antidepressivos), o que não é um equívoco em sua complexidade, é verdade, a depressão neurológica só pode ser tratada de maneira medicamentosa, porém, a depressão de causa emocional, majoritariamente o caso mais comum, necessita de atendimento psicoterápico, simultâneo ao atendimento farmacológico.

Embora haja evidencias científicas de sua natureza patológica, alguns religiosos insistem em exorcizar o depressivo, há quem até identifique até um espírito chamado de “espírito de depressão”. Diante desta visão simplista fico a indagar: o que será de nossos irmãos em Cristo que sofrem de depressão? Estão eles endemoninhados? E quando falamos de pastor com depressão? Estaria ele possuído?

Permita-me compartilhar uma experiência pessoal, presido uma Ong (www.god.org.br)
que se destina a oferecer atendimento psicológico gratuito, para tanto, utilizamos um anexo de nossa igreja (Comunidade Cristã do Tatuapé). Tal atendimento psicológico é aberto a toda a comunidade de nosso bairro e adjacências, porém, para a minha surpresa 99% dos nossos pacientes são irmãos em Cristo de várias igrejas evangélicas, atendemos pastores, missionários, membros da diretoria da igreja, enfim, irmãos que estão adoecendo emocionalmente dentro das igrejas.

Dentro da atividade psicoterápica, buscando as causas do adoecimento emocional, não me parece que estejam “endemoninhados”, ao contrário há causas bastante claras e justificáveis para o sofrimento vivenciado por eles, problemas conjugais, familiares, profissionais, perdas, frustrações, traições... um número indizível de razões que os levaram a desenvolver um comportamento depressivo.

[b]Pergunta: Por que procuraram atendimento psicológico?[/b]

Por uma simples razão, estão cansados de serem exorcizados em suas igrejas sem qualquer resultado concreto. Pessoas precisam de oração, mas acima de tudo de atenção, de amor e compreensão. Não podemos continuar fazendo igreja no “atacado”, onde as pessoas se tornaram um número em nossa relação de membros, mas alguns irmãos precisam ser individualizados, como uma ovelha que não consegue acompanhar o passo das demais, e por isso, precisa ser tratada de forma individual.

Acredito que demônios possam atuar agravando o estado de sofrimento de pessoas, e diante desta atuação apenas a oração no nome de Jesus possa curá-los, no entanto, quando pensamos em “depressão” acredito que o caso é muito mais complexo que o mero exorcismo. Lembre-se, somos “crentes”, mas continuamos sendo seres humanos, e ser humano se perfaz pela necessidade de amar e sentir-se amado. Acredito que podemos como igreja fazer mais do que orar por essas pessoas.

Por Adriano Chagas

Adriano Chagas é pastor da Comunidade Cristã do Tatuapé, Mestre em Teologia com especialização em Psicologia e Religião pela Pontífice Universidade Católica (PUC/SP); Diretor do Instituto de Saúde e Espiritualidade Doxa Brasil; possui também especializações em Prevenção a Drogas e Dependência Química pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP) e Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Presidente da Organização GOD (Grupo de Orientação a Depedentes).

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